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A
Culpa Que Não Existiu e a Inocência Inventada
Fritz
Utzeri
No
começo da 2ª Guerra, o escritor Elias Canetti
estava em Londres e encontrou o pintor austríaco
Oskar Kokoschka. Os dois não se viam fazia tempos.
Naquela altura, cada um havia traçado sua própria
vida de andarilho. Canetti era um judeu búlgaro
que, na infância, morou em Manchester, depois foi
para Viena e, mais tarde, para Zurique, onde virou sociólogo.
Voltou à Áustria, se doutorou em química
e começou a escrever em alemão peças
de teatro, romances e ensaios especialmente inquietantes.
Kokoschka era austríaco, filho de um ourives tcheco.
Tinha perambulado pela Alemanha e pela Espanha, conseguiu
sobreviver a uma paixão tempestuosa e avassaladora
por Alma, a viúva de Gustav Mahler, e era um homem
célebre e celebrado, um inovador nas artes de um
mundo em efervescência. Vivia mergulhado em angústias
profundas e, naquele dia, estava especialmente agoniado.
Mal
começaram a conversar e a passar a vida a limpo
quando Canetti se preocupou com a tristeza do amigo. Não
havia maneira de tirá-lo das brumas de uma melancolia
sem fim. Naquele 1940 as coisas do mundo andavam especialmente
desmanteladas, é verdade, mas a amargura de Kokoschka
transbordava as notícias e sufocava quem estivesse
por perto. Deram voltas e voltas a um sem-fim de assuntos,
até que o pintor confessou a causa de sua imensa
aflição:
-
A culpa é minha. Ninguém sabe, mas eu sei.
A culpa é minha.
Canetti
quis saber. E Kokoschka então contou:
-
Éramos dois, na disputa final pela bolsa de estudos
da Academia de Belas Artes de Viena. Uma vez conversamos
e fiquei impressionado com a determinação
dele, que só queria ser uma coisa na vida: pintor.
Nunca vi alguém tão determinado. Dizia que
ia ficar na história do mundo. Não admitia
a idéia de perder a bolsa para mim. Fiquei assustado,
achando que se eu ganhasse, ele iria me perseguir para
sempre.
Quando
saiu o resultado, a bolsa de estudos foi para Oskar Kokoschka.
Junto com a alegria, veio o medo: sabia que o outro candidato,
o derrotado, não se conformaria jamais. Kokoschka
sentiu, no fundo da alma, que ouviria falar dele pela
vida afora. O nome do candidato eliminado era Adolf Hitler,
um aquarelista razoável que se achava ótimo.
Naquele
encontro em Londres, Kokoschka era um sobrevivente. Foi
perseguido pelos seguidores do aquarelista frustrado e
ressentido, e escapou por pouco. Viveu o suficiente para
revolucionar boa parte da pintura do século 20,
mas achava - tinha certeza - que, se em seu lugar a Academia
de Belas Artes de Viena tivesse aceito Adolf Hitler, seu
rival não teria virado o que virou, e feito o que
fez. Kokoschka foi um dos criadores da pintura expressionista
austríaca, tornou-se mestre de mestres, mas carregou
essa estranha culpa pelo resto da vida.
Dia
desses, li essa história num texto do escritor
espanhol Javier Cercas. E passei pela memória os
pecados e glórias ocultos que cada um de nós
traz na alma.
Curiosa
questão, a das culpas e das responsabilidades ocultas.
Lembrei a história de Kokoschka e Hitler e fiquei
pensando num certo poltrão que se sonhou messiânico,
ficou bêbado de si mesmo e desandou a mentir desbragadamente,
jurando que era ele o traído, e não o traidor.
Kokoschka inventou uma culpa que não teve. Esse
homenzinho que se deixou alucinar pela própria
lenda inventa uma inocência na qual nem ele mesmo
crê.
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